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Há 50 Anos...

04/12/2011, às 13:28:10 - por Francisco Bicudo - Fonte: Francisco Bicudo
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Nos últimos anos muitas coisas mudaram tecnologicamente falando, porém no comportamento humano muitos costumes permanecem inalterados, principalmente a exploração do homem sobre homem. Vai-se os anos e a história volta a repetir. Isto me faz lembrar um fato que o velho Doca me contou, numa tarde de outono, lá no rancho do Nelo, enquanto se preparavam pra farinhada.

Dizia de quando ainda era “rapaji pequeno apareceru por ali um zome bem alinhado que vinhéram lá da vila de Garopaba e pegaram a conversar com sô Doralécio, de baixo do Biguaçú. Aos poucos o povo espiado foi cercando a meia distância, só as crianças chegavam perto onde o grupo conversava.

O seu Doralécio era homem de respeito na encosta, plantava e pescava, tinha engenho de farinha e criação. Quando faziam festa de Bom Jesus, era na casa dele que o padre pernoitava. E por ali ficaram conversando até meia tarde.

Doca lembrava das promessas que deixaram, porque naquele mesmo dia seu Doralécio foi até sua casa, contar a seu pai os acertos que havia feito com aqueles homens lá da vila.

-Quando so Doralécio chegô, papai tava terminando uma gaiola de cana-do-reino com arçapão farço, de encomenda do so Lico, moradô da Prainha, que gosta muito de pegá gaturama e canáro da teia. Logo que chegô priguntô se nossa famiia tão passando bem de saúde e não tão precisando de nada, quié só pedí que ele dá um jeito. E ali conversaram cercados da família e algum vizinho do Doca.

-O so Doralécio falô a papai que aquele zome da vila eram gente estudada lá na capitali, não são qui nem nóis, que só escrevemo com arado o chão da terra. O mais moço é o so Bento da venda e o zotro são so Lisio e Nézinho do so Francolino, gente que por sorte nasceu na vila, mas precisavu de nossa ajuda nas enleição, pra mo´de sê home de falação, pra fazê da vila, cidade, com tudo de bão pro povo, hospitáli, água de manguera e até bico de luji. Que essa tal de enleição ia fazê deles atoridade e assim ajudá nosso povo que é pobre, mora em barraco de barro, dorme na palha e anda de pé no chão. Disse também, que essa gente custa munto a aparecê por aqui, pra mo´de vim bispá as cosa que nóis sofremo. Também prometeru que adepoiji da enleição a vida ia ficá melhó, sem fome, sem dori e até serviço em troca de dinhero, pra mo´de fazê do caminho de carro de boi estrada pros atomóvi chegá inté aqui.

-O que o papai maiji gostô foi quando eles disseru que iam trazê um tal de rádo, uma caxinha que fala e toca música pra mo´de ovi também as coisa lá da cidade, tudo na mesma horinha que tão falando. E pra toda gente que votá neles vão ganhá foice e facão di primera, tudo por conta do zome da vila.

-Eu lembru que vó Zefa ficô ali escuitando a falação e no fim priguntô ao so Doralécio cumé qui era essa tal de enleição, porque a única enleição que ela conhecia era a enleição da bruxa-mor. E pegô a contá que antes da troca de mando as bruxas saiam por ali e por lá a fazê promessa de todo o tipo pros vivente que ficavam tolos esperando e nada vinha. Quanto maiji as bruxa fizesse promessa e descaminhasse o povo, maiji ela fica acoitada pra mo´de dirigi o bando, adepoiji da morte da bruxa-mor, que mórri mordendo os dente de arrependimento dos máli que feji aos vivente, lá no fogo dos inferno. A bruxa que ganhá o mando nas enleição vai guardá obidiença fiéli ao chefe Lúcifer, o anjo do descaminho e arrependimento.

-So Doralécio escuitô a falação de vó Zefa e disse que o zome que tiveru lá em sua casa era zome bão que só prometiam coisa que iam fazê bem pra nossa gente.

-Então vó Zefa apriguntô como aquele zome iam acabá com a fome e a dori do povo? isso é promessa so Doralécio, disse a vó, e quem promete tem que cumpri, se não fica velhaco e começa a trabaiá pro tinhoso do zinferno.

-E vão cumpri, eu conheço esse zome, dona Zefa, são gente ricaça lá da vila, e tem munta sabença e pode escrevê qualqué dicumento pra mo´de melhorá a vida do nosso lugari.

-Vó Zefa disse que conheceu mulhé que feji acerto com bruxa de ficá moça facera, pra mo´de encantá marido bão e morreru esperando. São tola acreditá nessas promessa que só servi pra sugá a esperança da gente.

-Hoisi, sô um home veio e vejo eles prometendo celulari e inté televisão colorida pra mo´de votá neles traveiji. Vô morrê e não ví o povo sem fome e sem dori, vó Zefa tinha razão, tolo aquele que espera por essa gente.

Assim eu ouvi e assim eu escrevo.

Comentários
Chang Porto Alegre - RS - 24/04/2012 às 22:11:55
Que beleza de texto, consegui imaginar as pessoas e o lugar. Mas o incrível é que se passou há 50 anos e é de uma atualidade tremenda, pois ainda hoje alguns políticos se aproveitam da ingenuidade dos humildes pra se elegerem, mantendo os pobres sempre na mesma situação de miséria e abandono pra dali alguns anos voltarem a iludí-los.
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